O que é um Sacramento?

O que é um Sacramento?

17 de setembro de 2020 Off Por GED

Procuremos, em primeiro lugar, compreender bem o que é um sacramento, donde vem e para que serve.

O catecismo diz que “sacramento é um sinal sensível, instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, para produzir a graça em nossas almas e santificá-las.”

Desta definição resulta que três coisas são exigidas para constituir um sacramento:

  • “Um sinal sensível”, representativo da natureza da graça produzida. Deve ser “sensível” porque se não pudéssemos percebê-lo, deixaria de ser um sinal. Este sinal sensível consta sempre de “matéria” e de “forma”, isto é, da matéria empregada e das palavras pronunciadas pelo ministro do sacramento.
  • Deve ser “instituído por Jesus Cristo”, porque só Deus pode ligar um sinal visível a faculdade de produzir a graça. Nosso Senhor, durante a sua vida mortal, instituiu pessoalmente os sete sacramentos, deixando apenas à Igreja o cuidado de estabelecer ritos secundários, realçá-los com cerimônias, sem tocar-lhe na substância.
  • “Para produzir a graça”. Isto é, distribuir-nos os efeitos e méritos da redenção que Jesus Cristo mereceu por nós, na cruz… Os sacramentos comunicam esta graça, “por virtude própria”, independente das disposições daquele que os administra ou recebe. Esta qualidade, chamada pela teologia “ex opere operato”, distingue os sacramentos da “oração”, das “boas obras” e dos “sacramentais”, que tiram a sua eficácia “ex opere operantis” das disposições do sujeito.

 Os sacramentos não são meras representações?

Ninguém pode dizer que os sacramentos são meras cerimônias exteriores, e afirmar testemunhando que a graça está na alma, sem o poder de infundi-la. Isso é um erro fundamental e grosseiro.

Para provar irrefutavelmente a necessidade dos sacramentos, é preciso recorrer à sublime doutrina da graça, ou da nossa vida sobrenatural. Os sacramentos são, de fato, os meios, os canais, para transmitir-nos a graça divina, os merecimentos de Jesus Cristo.

A graça, que a teologia define “um dom sobrenatural de Deus”, por causa dos méritos de Jesus Cristo, como meio de salvação, é tudo na religião católica, é sua seiva, o seu sopro, a sua alavanca.

Querendo ou não, todos os homens devem viver da graça ou se perderão eternamente. Ou escolhem a vida de Cristo que é a graça, ou a vida da carne que é o vício; a salvação ou a perdição.

Santo Agostinho define a graça da seguinte forma: “A graça é como o prazer que nos atrai… Não há nada de duro na santa violência com que Deus nos atrai… tudo é suave e benfazejo” (Sermo 133, cap. XI). Esta palavra é admirável: a graça é um verdadeiro poder atrativo, que provém à vontade, a estimula e leva a Deus, a atrai por deleitação interior, e faz amar, como por instinto, Aquele que a nossa razão devia amar acima de tudo: Deus. Este termo “atrativo” parece novo em teologia, entretanto ele é a expressão da palavra de Nosso Senhor: “Ninguém pode vir a mim, se Aquele que me enviou não o atrair” (Jo 8, 22).

O que é a graça e a necessidade dos sacramentos?

A graça em seu princípio é, pois, a vida de Deus em nós: “A participação da natureza divina”, diz Santo Tomás.

Para comunicar-nos a sua vida, Deus podia agir imediatamente sobre a nossa alma; ele o faz às vezes. A simples elevação dos nossos corações, pela oração, podia produzir este efeito, mas além desta ação imediata de Deus sobre a alma, além do meio da oração, Deus instituiu meios particulares para comunicar-nos as suas graças, meios obrigados, indispensáveis: estes meios são os sacramentos.

Vejamos esta necessidade; está admiravelmente descrita por S. Paulo (Rom. 6, 1-14): “Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde? De modo nenhum” (6, 1). “Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” (8). “O pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça” (14).

Há, pois, duas vidas em nós: a vida do pecado e a da graça. Ora, esta graça é o dom de Deus, proveniente dos méritos de Jesus Cristo. É a seiva desta graça que deve circular em nós: “Nós somos os ramos, Cristo é o tronco” (Jo 15, 4-5). Deve haver união completa, íntima entre os meios de transmissão da graça e a alma que recebe esta graça, como há união completa entre o tronco e os ramos.

Na oração e nas boas obras esta união completa não existe… Deve haver outro meio e este meio são os sacramentos. Os sacramentos tornam-se, neste sentido, os canais transmissores da graça divina às almas. Canais estabelecidos por Jesus Cristo, como veremos, e, portanto necessários.

Como provar a existência dos sete sacramentos?

 É um dogma, definido pelo Concílio de Trento, que existem os sacramentos e que são em número de sete.

São, pois, sete os sacramentos, nem mais, nem menos. A Igreja católica sempre ensinou e sempre ensinará que há sete sacramentos, porque assim recebeu o ensino dos Apóstolos, tanto pela Tradição, como pelo Evangelho, e assim o vai transmitindo aos séculos. Nunca houve discussão a este respeito na Igreja, embora não encontremos nos primeiros séculos a enumeração metódica que hoje empregamos na citação dos sacramentos.

Três argumentos temos às mãos para provar a tese dos sete sacramentos, e todos três são irrefutáveis:

  •   A crença dos séculos;
  • O bom-senso;
  • O Evangelho.

a) Crença Secular

O primeiro argumento da crença popular desta verdade parece remontar ao século V, quando até mesmos os hereges, como os monofisitas e os nestorianos, aceitavam o número dos sete sacramentos. Em textos deles é explícito o número de sete sacramentos, recebidos da Igreja Romana.

b) O Bom-senso

É apenas argumento de conveniência, é certo, mas este argumento tem o seu valor pela analogia perfeita que estabelece entre as leis da vida natural e as leis da vida sobrenatural.

Santo tomas explica admiravelmente esta analogia. Os sete sacramentos reunidos são necessários e bastam para a vida, conservação e prosperidade espiritual, quer do corpo inteiro da Igreja, quer de cada membro em particular.

Os cinco primeiros são estabelecidos para o aperfeiçoamento pessoal, os dois últimos para o governo e a multiplicação da Igreja.

Na ordem natural, para o aperfeiçoamento pessoal, é preciso: 1o. nascer; 2o. fortificar-se; 3o. alimentar-se; 4o. curar-se na enfermidade; 5o. refazer-se nos achaques da velhice.

Para o aperfeiçoamento moral a humanidade carece de: 1o. Autoridade para governar, 2o. Propagação para perpetuar-se.

Tal é a ordem natural. Temos os mesmos elementos na ordem espiritual:

  1. O batismo é o nascimento da graça;
  2. A crisma é o desenvolvimento da graça;
  3. A eucaristia é o alimento da alma;
  4. A penitência é a cura das fraquezas da alma;
  5. A unção dos enfermos é o restabelecimento das forças espirituais;
  6. A ordem gera a autoridade sacerdotal;
  7. O matrimônio assegura a propagação dos católicos e das suas doutrinas.

  Os sete sacramentos são, deste modo, como outros tantos socorros, dispostos ao longo do caminho da vida, para a infância, a juventude, a idade madura e a velhice; para as duas principais “carreiras” que se oferecem: sacerdócio e casamento.

Não se pode negar que a analogia é admirável e estabelece que deve haver sete sacramentos. Se houvesse menos, faltaria qualquer coisa; se houvesse mais, haveria um supérfluo; todas as necessidades estão preenchidas.

c) O Evangelho

Estarão expressos no Evangelho os sete sacramentos? Perfeitamente! O que os muitos não conseguem entender é que Jesus não citou o número de 7, mas citou os sacramentos.

O Evangelho não fala de sete sacramentos, mas vai enumerando todos os sete, instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo:

   O Batismo

Sua instituição e preceito estão positivamente marcados nos seguintes textos: “Em verdade vos digo, disse Jesus a Nicodemos, quem não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3, 5). “Ide, ensinai todas as gentes, disse Jesus a seus discípulos, batizando-as, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19). “O que crer e for batizado, será salvo”, (Mc 16, 61). “Recebe o batismo e lava os teus pecados”, disse Ananias a Saulo (At 22, 16). Os Apóstolos administravam o batismo a todos os que desejavam alistar-se na religião nova. Três mil pessoas receberam o batismo das mãos de S. Pedro, no dia de pentecostes (At 2, 38-41).

 A Crisma

Os atos dos apóstolos provam que o seu rito exterior consiste na imposição das mãos, diferente do batismo que utiliza a água. Os apóstolos Pedro e João, enviados a Samaria, “punham as mãos sobre os que tinham sido batizados”, e recebiam estes o Espírito Santo (At 8, 12-17). Do mesmo modo, S. Paulo, vindo a Éfeso, batizou, em nome de Jesus Cristo, discípulos de João e a “eles impôs as mãos, para que o Espírito Santo baixasse sobre eles” (At 19, 1-6). Para que S. Paulo imporia as mãos sobre quem já era batizado se a Crisma não fosse um sacramento que confirmasse o Batismo, completando os dons do Espírito Santo? Segundo estes textos, compreende-se claramente que Pedro e João de um lado, e Paulo de outro, deram o Espírito Santo, pela imposição das mãos. Ora, uma tal prática seria ridícula, se eles o fizessem fora da vontade e das prescrições do Mestre. A Crisma é, pois, um sacramento instituído por Nosso Senhor.

  A Eucaristia

A palavra “Eucaristia” provém de duas palavras gregas “eu-cháris”: “ação de graça”, e designa a presença real e substancial de Jesus Cristo sob as aparências de pão e vinho.

Essa presença não foi contestada nem mesmo por Lutero. Em carta a seu amigo Argentino (De euch. dist. I, art.) falando sobre o texto evangélico “Isto é o meu corpo”, ele diz: “Eu quereria que alguém fosse assaz hábil para persuadir-me de que na Eucaristia não se contém senão pão e vinho: esse me prestaria um grande serviço. Eu tenho trabalhado nessa questão a suar; porém confesso que estou encadeado, e não vejo nenhum meio de sair daí. O texto do Evangelho é claro demais”.

Eis, em S. João, os termos de que Jesus Cristo se serviu, falando a primeira vez deste grande sacramento: “Eu sou o pão da vida; vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que o que dele comer não morra. Eu sou o pão vivo, que desci do céu. Se alguém comer deste pão, viverá eternamente, e o pão que eu darei é a minha carne, para a vida do mundo” (Jo 6, 48-52).

Que clareza nessas palavras! Que quer dizer isso: “Eu sou o pão vivo – o pão que eu darei é a minha carne”. É ou não é a carne de Cristo? É ou não é Cristo que será o pão que deve ser comido? Será que Deus não saberia se expressar direito se desejasse fazer uma simples alegoria?

E não é só isso! Nosso Senhor continua, cada vez mais positivo e mais claro: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. O que comer a minha carne e beber o meu sangue terá a vida eterna. Porque a minha carne é verdadeiramente comida, e o meu sangue é verdadeiramente bebida. O que come a minha carne e bebe o meu sangue, fica em mim e eu nele. O que me come… viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu… O que come este pão, viverá eternamente!” (Jo 6, 54 – 59).

Eis um trecho claríssimo, que não deixa margem à dúvidas. Nosso Senhor afirma categoricamente: “… minha carne é verdadeiramente comida”. É impossível negar algo tão claro: a carne de Cristo, dada aos homens para remissão dos pecados, é para ser comida; e quem comer desta carne “viverá eternamente”.

Cristo afirma, repete, reafirma, e explica que o pão que ele vai dar é o “seu próprio corpo” – que seu corpo é uma “comida” – que seu sangue é uma “bebida” – que é um pão celeste que dá a vida eterna.

Ao negar a presença eucarística, se nega as palavras de Cristo.

Cristo diz: “Este é o meu corpo”.

Cristo ajunta: “Minha carne é verdadeiramente comida”.

Cristo completa: “O que me come… viverá por mim.”

Cristo repete: “O que come a minha carne, fica em mim”.

A posição daqueles que rejeitam as verdades dos sacramentos, é igual a posição que tomaram os fariseus: “Como pode este dar-nos a sua carne a comer?” (Jo 6, 53). Retiram-se murmurando: “É duro demais, quem pode ouvir uma tal linguagem!” (Jo 6, 67).

Que fará Jesus, dissipa o equívoco e explica que é simbólico o que Ele acaba de dizer, para que não se perdessem os que se retiravam?

Não! Vira-se para seus Apóstolos e, num tom que não admite réplica, pergunta: “E vós também quereis abandonar-me?” (Jo 6, 68). É como se afirmasse: quem não desejar aceitar a verdade, que retire-se com os outros! A verdade é essa e não muda.

E S. Pedro lança este sublime brado de fé: “Senhor, para quem havemos de ir? Tu tens as palavras de vida eterna. E nós cremos e conhecemos que tu és Cristo, o Filho de Deus” (Jo 6, 67-70).

É a cena da promessa da eucaristia, que ia sendo preparada por Nosso Senhor em seus Apóstolos, que acreditavam e amavam mesmo sem entender!

Aos que não acreditam nessa graça, cabe uma pergunta muito objetiva: Seria possível Cristo ser tão solene e tão claro, utilizando palavras tão majestosas e escandalizando a tantos incrédulos, apenas para prometer-nos um “pedaço de pão”, que devemos comer em sua lembrança? Seria impossível.